Um ano no Marrocos

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Há um ano eu comecei a interpretar diversas interjeições, expressões faciais com muitas torções de bochechas e compressão de testa e passei a ouvir diariamente a palavra “corajosa”. Foi quando disse que me mudaria para Marrakech que tudo mudou. As pessoas mudaram, as relações mudaram. Não que isso seja negativo, mas não dá para ser a mesma pessoa e me relacionar do mesmo jeito depois de cruzar o oceano e me separar de quase tudo que sempre fez sentido para mim. A princípio, não entendia o porquê de tantas pessoas me falarem que eu era muito corajosa. Eu não via um ato de coragem na mudança. Eu via apenas uma mudança de país. Mas mais que mudar de país, eu mudei.

Atrás de fotos coloridas com mosaicos maravilhosos, atrás de toda cultura que tento mostrar nos posts e nas redes sociais, embaixo de todo cuscuz e tajines há uma transformação invisível a olhos nus. Uma transformação que só quem se mantem muito próximo consegue enxergar. Isso não é privilégio meu. Acredito que seja a realidade de todos os expatriados ao redor do mundo.

A gente se transforma na nossa própria fortaleza, construímos nossos soldados internos para batalhar pela adaptação todos os dias. Obviamente alguns fatores ou pessoas podem ser muito participativos nesse processo, mas a mais dura das batalhas está sempre dentro de nós. Durante os primeiros seis meses no Marrocos eu dormi quase todas as noites pensando que não iria me adaptar. Achei que em algum momento iria entrar no primeiro avião e voltar para o Brasil. Não porque estava ruim aqui ou porque algo ia mal, apenas e simplesmente porque a única coisa que eu tinha comigo mesma que era familiar ao que eu tinha vivido nos últimos 30 anos era eu mesma e meu marido e muitas vezes a gente procura pessoas, sabores, cores, objetos que nos façam nos sentir em casa. Por outras tantas noites deitei no silêncio do meu quarto e ouvi internamente o barulho que eu ouvia todas as noites do meu quarto, em São Paulo, quando ia dormir. Era o portão da garagem do prédio abrindo e fechando para os moradores que chegavam e saiam tarde da noite e que ficava bem embaixo da janela do meu quarto. Não foram poucas as vezes que ao sair de casa ecoava o barulho do chaveiro da minha casa do Brasil batendo na porta ao trancá-la. E em vários outros dias acordava e sentia o cheiro de grama úmida da minha chácara, em Cabreúva, que vinha forte ao amanhecer, e que eu adorava sentir bem cedinho, ao tomar meu café.

Foram muitas nuances de saudades sentidas. Tem a fase do sufoco que faz doer o corpo. Como quando você sabe que naquele domingo toda a sua família está junta no almoço e você não ouve nada além de uns passarinhos em volta enquanto devora o que sobrou do jantar de sábado. Ou quando no grupo de WhatsApp chegam as fotos da noite anterior quando todas as suas amigas foram juntas em uma festa e você ainda sem amigos ao redor simplesmente não saiu de casa. Depois de um tempo, você entende a saudade como uma companheira, uma amiga que te lembra o quanto tantas coisas vividas antes da mudança são deliciosas, mas a rotina transformava em obrigações sociais. Agora, esses encontros e compromissos têm um sabor indescritível quando acontecem quando você vai ao Brasil. Nada vai te ensinar mais sobre o valor das coisas do que a distância. Ao mesmo tempo que os milhares de quilômetros te afastam fisicamente das pessoas, eles trazem para perto quem sempre esteve realmente perto porque é verdadeiro. Não há falsidade na distância. A gente reconhece os poucos e bons. É engraçado como eu tive mais conversas profundas no WhatsApp no último ano do que pessoalmente nos últimos 5 anos.

Talvez Freud explique o movimento da nossa cabeça na adaptação, mas o fato é que a gente se adapta. Chega um dia que a gente para de procurar o que nos falta e aceita o que temos. Se não tem tapioca, aceita o crepe com farinha de arroz. Se não tem café bom, tome um Nespresso. Quando faltar dendê, põe cominho. A gente se adapta a andar pelas ruas e sentir cair na cabeça azeitonas maduras e tâmaras gordas das inúmeras oliveiras e tamareiras que enfeitam as ruas de Marrakech.

E então, depois de um ano, passei a entender porque me disseram tantas vezes que eu era corajosa em me mudar. Foi realmente um ato corajoso mesmo sem eu conseguir conceber isso naquele momento. Por mais aberto que seja o Marrocos, ainda assim é um país muçulmano, com tradições fortíssimas que muitas vezes tomam o lugar de leis. Talvez a maior coragem foi tentar me fazer aceita por aqueles que me cercam. Há quem seja muito tradicional e não goste de uma ocidental entrando em seu domínio.

Não foram poucas vezes que vi olhares tortos em minha direção quando tive que com um sorriso tentar contornar aquela situação. Outro dia, um cliente nosso veio se despedir, no fim da viagem, me deu um beijo, um abraço e disse “Parabéns…” e eu achei que ele diria “Parabéns pela empresa! Parabéns pelo trabalho!”, mas ele disse “Parabéns pela coragem!”. Ali todas as interjeições, caretas, testas franzidas de um ano antes fizeram sentido.

Nossa maior batalha é fazer de um canto do outro lado do mundo a nossa casa. Reconhecer o cheiro dos móveis como o cheiro de nós, do nosso conforto. Ouvir alguém falando em árabe ou francês e fazer mais sentido do que quando você ouve o português. A gente luta para encontrar nossos lugares favoritos, para escolher nossa comida predileta. A gente se esforça para ter pacotes de feijão suficiente para você passar os próximos meses comendo aquela comidinha de casa.

Depois de quatro estações do outro lado do Atlântico, depois de morrer de calor no verão e de congelar no inverno, já sei o que está por vir. Já entendi como lidar com a vida em clima desértico, já fiz estoque de tratamento para os cabelos não virarem palha de novo. E até já aprendi a cortar meu próprio cabelo e eliminar a piaçava que se forma com tanta aridez. Nesse verão não vai ter crise capilar.

Mas eu insisto: a maior transformação não está visível a olhos nus. Os valores se transformam. Hoje, o mundo lá fora se tornou longe demais da minha família, dos meus amigos, do meu país. Antes, eu queria sair e conhecer o mundo. Hoje, sonho com o dia que embarco para o Brasil para passar um tempo exatamente como vivi nas outras três décadas. E se no Brasil eu aprendi a fazer dos limões que a vida me dava uma bela caipirinha, agora, aproveito a imensidão de oliveiras e faço das azeitonas que a vida me dá um belo azeite para dar mais sabor às novas experiências.

2 comentários Adicione o seu

  1. Vanessa disse:

    Você realmente é uma mulher muito corajosa, te admiro demais. Passei 1 mês no Marrocos e sei bem o quanto a cultura é diferente, meu namorado e marroquino fui muito bem aceita pela família dele e todos que o cercam. Me apaixonei pelo Marrocos e hoje só aguardo o momento certo de arrumar as malas e mudar minha vida completamente, assim como você . Fácil sei que não será, terei que ter muita coragem. Enquanto esse dia não chega fico acompanhando suas experiências . Obrigada por compartilhar de uma forma tão sincera com a gente .

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    1. Oi Vanessa, fico muito feliz com a sua mensagem! Obrigada pelo carinho! Quando estiver por aqui me avisa e vamos nos conhecer! Bjs

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