As polêmicas muçulmanas na Olimpíada

atleta muçulmana

Duas cenas renderam alguns dias de discussões na Olímpiada do Rio e ambas envolvendo o conflito e/ou a posição religiosa dos atletas islâmicos. Uma delas foi sobre a roupa que as atletas egípcias do vôlei de praia usaram em jogo com as alemãs. A cena mostra uma diferença de realidade que é comum, porém parece que ainda desconhecida por muitos. Para aumentar ainda mais a discussão, circulou ainda a polêmica de que a agência iraniana Tansim News modificou a foto “apagando” a alemã de biquíni na hora de divulgar a imagem. A outra polêmica foi sobre o egípcio muçulmano Islam El Shehaby não ter cumprimentado seu adversário israelense, Or Sasson, em disputa do judô.

Pois bem, junto das duas notícias veio uma enxurrada de comentários completamente sem noção de letrados e não letrados, que fazem um coro à intolerância muito mais forte e alto que muitas guerras.

Que El Shehaby errou não há dúvidas. Que o COI precisa puni-lo também não. Ele teve uma atitude antidesportiva das piores. Não cumprimentar o adversário, quem quer que ele seja, é uma atitude desprezível que vai contra todas as lições de todo e qualquer esporte ensina. Porém, não justifica dizer que ele fez isso porque é um lixo de muçulmano, que o Islã é uma religião imprestável, que todos deveriam morrer (sim, as pessoas falam isso). Ele  fez isso não porque é muçulmano. Ele fez isso por pura ignorância.

Me surpreende também que grandes jornais deem manchete para o lenço que cobre a cabeça das atletas muçulmanas. Desde quando uma muçulmana tira o lenço porque está em um país não muçulmano ou porque está competindo? As hijabs são adaptadas para todas as necessidades das muçulmanas, inclusive para esporte e praia.

E o ponto que eu quero chegar com isso é: cada dia mais, a islamofobia se propaga. E vai mais rápido do que o crescimento de muçulmanos no mundo. Caso você não saiba, essa é a segunda maior religião do planeta, com cerca de 1.600.000.000 (um bilhão e seiscentos milhões) de seguidores, atrás do cristianismo, que tem cerca de 2.200.000.000 (dois bilhões e duzentos milhões). Não é de hoje que eu ouço pessoas falando que muçulmanos são radicais, que querem guerra, que são extremistas, que são perigosos, que são nojentos. Esses aí são uma pequeniníssima parte da religião, que realmente são extremistas, intolerantes, nojentos e merecem mesmo morrer 9na minha pacífica opinião), e, no caso, são os grupos terroristas. E sabe como eles atuam? Usando a fé enorme de muitos muçulmanos para propagar seus próprios interesses. Não são interesses do Islã. Não são interesses de Deus. São seus próprios interesses. Como há muito mais de um bilhão de muçulmanos no mundo e a devoção deles pela religião é absurda, fica fácil os grupos terroristas encontrarem pessoas dispostas a fazer aquelas loucuras, afinal, para ser louco não precisa escolher uma religião. Qualquer um pode nascer louco ou enlouquecer e se deixar levar por lavagens cerebrais, como os extremistas fazem.

Assim como no cristianismo, sabemos que muitas igrejas católicas e evangélicas usam da fé dos seguidores para alcançar objetivos egoístas que beneficiam apenas um pequeno grupo. Ou seja, estamos falando de uma minoria. O problema é que essa minoria muçulmana radical faz um estrago muito grande no mundo, infelizmente.

Não estou defendendo e jamais irei defender nenhum ato ou grupo terrorista, não é o caso desse texto e não quero entrar no tema terrorismo. Estou defendendo a tolerância. Sabe por que? Porque é a intolerância a causa de 99% das guerras do mundo, há séculos e séculos. É a ignorância que nos leva aos atos extremos. Conhecimento e clareza de pensamento faz com que nos coloquemos no lugar do outro antes de tomar uma atitude imbecil e atroz.

Outro dia, num post do Facebook de um conhecido, li palavras de ódio contra os muçulmanos tão pesadas que mesmo não sendo muçulmana me senti atingida. Fui conversar com ele e dizer para ele manter a calma e cuidar das palavras que diz e ele me disse que era islamofóbico, sempre será e sempre defenderá a morte e/ou erradicação os islâmicos do mundo. (??????)

Moro em um país que tem 99% da sua população seguidora do Islã e sabe o que eu vejo por aqui? Paz. Não há guerra. Inclusive, já contei aqui que em todas as medinas muçulmanas do Marrocos há um bairro judeu, e esse bairro judeu está sempre próximo à propriedade do rei. Quer simbologia maior que essa? O atual Rei do Marrocos, Mohammed VI, é descendente direto do profeta Maomé, o que o torna não só um líder político bem como religioso no país. Sua figura é de extrema potência na população. E aqui os judeus têm seu espaço e suas sinagogas. Judeus que já vieram ao Marrocos podem contar melhor essa história para você.

O islamismo tem cinco pilares, sendo que o primeiro deles é: Deus é um só para todos. E por “todos” entende-se todos que acreditam em um só Deus, ou seja, as religiões monoteístas – judaísmo, islamismo e cristianismo.

Sou católica ortodoxa, tenho minhas figuras e imagens católicas por toda minha casa, me visto como ocidental, converso com muçulmanos, respeito a hora da reza deles, nunca tentei entrar numa mesquita e sabe o que isso significa para eles? Nada demais. São todos iguais diante de Deus, é o que falam. E é isso que eles esperam de mim assim como espero isso deles: tolerância. E esbarrando no tema respeito e na figura apagada da jogadora de vôlei alemã pela agência iraniana, não achei bacana a atitude mas entendo a posição deles. Acredito que poderiam, então, ter usado uma imagem onde somente as egípcias aparecessem, porém, já que optaram por essa que foi divulgada, basta a gente parar para pensar: por que eles iriam colocar uma mulher de biquíni e disparar para jornais e meios de comunicação de um país com 99% da população islâmica? A imagem de uma mulher de biquíni não circula de maneira alguma em veículos e meios de comunicação. E por que os jornais brasileiros insistem na manchete “atletas de burca jogam…”. Sim! Elas jogam de burca! Elas vão à praia de burca!! E diante da questão que ocorre na cabeça da maioria das pessoas sobre como elas conseguem, a resposta é simples: elas nasceram assim, não conhecem outra opção, assim como as brasileiras nascem sabendo que pra ir à praia devem colocar um biquinho ou maiô, então por que elas deveriam achar estranho ou ruim usar burca para praticar esporte ou ir à praia? Você acha ruim ir de biquíni?

Entendo que o diferente nos causa estranheza. Entendo que aqui eu causo, sim, um pouco de estranheza. Eu e todos os não muçulmanos que aqui vivem ou passam, obviamente. Mas ressaltar as diferenças, e diferenças bestas, diga-se de passagem, é levantar cada vez mais a bandeira da intolerância.

Desafio todos que são tementes à Deus, independente de qual religião ou crença, a não se emocionar com a devoção dos muçulmanos toda vez que há o chamado para a reza. Sim, há os que usam o nome de Deus em vão. Sim, há os que usam isso para se favorecer, mas em qual parte do mundo ou em qual crença isso não acontece?

Há muita coisa que discordo no catolicismo. Há muita coisa que me revolta na minha própria religião. E assim sempre será com todos, em todos as crenças. O que não podemos é julgar o todo olhando apenas uma parte. Não podemos julgar o islamismo pelos grupos terroristas, nem o catolicismo pelos padres pedófilos e nem os evangélicos pelos bispos que extorquem seus fiéis. Sejamos mais humanos, mais tolerantes e vamos tentar não utilizar lenços, burcas,  biquínis, sinagogas, mesquitas, igrejas e templos como ferramentas de segmentação dos povos.

 

2 comentários Adicione o seu

  1. hadi disse:

    adorei!!! bj

    Curtir

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