Bastidores Programa da Sabrina: Episódio 2: O que só a gente viu

(veja aqui o segundo episódio do Programa da Sabrina em Marrocos)

Eu já contei aqui os bastidores do primeiro episódio da Sabrina em Marrocos, o programa que a Sabrina Sato gravou aqui em Marrakech e que passou há pouco tempo no Brasil. Já no segundo episódio, ela conheceu a famosa cadeira montanhosa do Alto Atlas, um dos pontos que os turistas mais querem conhecer quando vem para cá.

A Cordilheira do Atlas tem 2.400km de extensão e corta o país, separando as cidades banhadas pelo mar e o deserto do interior do país, atravessando ainda Argélia e Tunísia. A cadeia de montanhas tem 3 partes diferentes: O baixo Atlas, no norte do país, onde ainda existe o Rif, outra cadeia monstanhosa, o médio Atlas, no centro do país, na região de Fès e Ifrane, e o Alto Atlas, aqui em Marrakech, onde temos o mais alto ponto de toda a cordilheira, o Jbel Toubkal, com 4.167m de altitude. Em todo Atlas, encontramos os berberes, que significa “bárbaro”, denominação que os próprios berberes não gostam.

Aqui, vamos trata-los (com todo respeito) como berberes, já que 99% do mundo os conhece assim. Eles são o povo marroquino mesmo, os primeiros a povoarem a região, cerca de 500 A.C., conforme a história conta. Se estabeleceram, primeiramente, no norte do Marrocos, vindos da Espanha, e depois foram descendo para outras regiões do país. Desenvolveram seus próprios meios de sobrevivência, sua língua e seus hábitos, quando, então, no século VI, aproximadamente, tiveram que lutar contra a invasão árabe. Neste momento é que eles dominam a região do Atlas, onde se refugiaram para lutar contra os muçulmanos que invadiram suas terras. Como conheciam muito bem a região, de difícil acesso a quem não conhece, encontraram lá sua fortaleza. Já no século seguinte, acabaram por aceitar a religião dos invasores e sua língua. Aqui, fala-se o árabe marroquino, ou darija, e o berbere, que nada não tem nada a ver com o árabe. Além do francês, já que os marroquinos também foram colonizados pelos franceses e conseguiram sua independência em 1956.

E foi esse povo que a Sabrina quis conhecer. As casas de pedra, a sobrevivência do artesanato feito com pedras e metais extraídos das montanhas, os minerais e a madeira abundante da região, além do pastoreio, atividade extremamente comum no país e nas montanhas.

Como meu sogro é da região norte do país, do Rif, Hadi acompanhou a Sabrina Sato e o Rodrigo Capella nessa visita. Lá, eles mostraram uma das ações sociais mais bacanas que tem, a Fundação Eve Branson, conforme você pode ver no vídeo do programa. Além disso, visitamos uma escola berbere, encrustada no meio da montanha, num pequeno vilarejo de casas de pedra.

Havíamos contactado a escola antes, obviamente, porque não queríamos atrapalhar as aulas, além de tudo aqui precisar de autorização para ser filmado. Tínhamos autorização da professora da escola para mostrar as crianças em sala de aula e também conversaríamos um pouco com ela para ela nos explicar como funciona a educação na região. Porém, uma outra professora que estava na escola e que não havia participado da primeira conversa, proibiu que filmássemos na escola. Existe uma certa resistência, em todo país, com as câmeras. Poucos gostam de aparecer e, provavelmente, essa professora era uma dessas pessoas. Conversamos, explicamos, ligamos para o diretor da escola, que fica em outro local, insistimos, mas ela estava irredutível. Foi então que decidimos esperar pelas crianças do lado de fora da escola, para conversar com elas na rua. Porém, a professora quis nos complicar um pouco mais e segurou as crianças além do normal, nos deixando na porta por muito tempo! Muito mesmo! Quando finalmente elas saíram, estavam arredias, provavelmente porque a professora deve ter dito algo não muito bacana sobre nós. Mas Sabrina sabe lidar muito bem com as adversidades e começou a chamar as crianças para cantar e danças, mostrando ainda que tínhamos alguns chocolates para elas, que queríamos presenteá-las na sala de aula. Foi aí que elas abaixaram a guarda e ficaram lá conosco durante bastante tempo.

Ali ao lado da escola, eles mostraram uma casa berbere. As casas deles são de pedra, os cômodos não têm uma divisão como os nossos: sala maior, quarto para crianças, quarto para adultos, cozinha, banheiros, área de serviço etc. Existem cômodos onde todos compartilham tudo, sala que é um quarto, uma área externa que tem uma estrutura de pedra para queimar lenha e virar o fogão, um quarto menor com um balde onde eles se banham. Não há um chuveiro propriamente dito. Também, muitas vezes, não há vaso sanitário e sim um buraco no chão. Sabrina ficou um pouco assustada com uma senhora no chão da cozinha, cega, enrolada em um cobertor, como se estivesse à espera da morte, apenas. E provavelmente ela estava. Como meu sogro disse no programa, eles lidam bem com a morte, entendem o encerramento do ciclo e muitas vezes entendem o remédio, o médico e a internação como um prolongamento da vida que contraria os planos de Deus.

Ali, naquela casa, vimos o dono entrando com um burro carregado de carga e a pergunta geral de todos que ali estavam era: mas o burro entra na casa? Sim. Ele entra. A vaca também. Os animais fazem parte de tudo como se houvesse ali um grande pasto, mas na verdade é uma pequena construção de pedras.

Acredito que para quem nunca viu, tenha sido um choque de realidade. Voltamos todos de lá um pouco mais pensativos sobre como vivemos, quais são nossas prioridades. Os questionamentos sobre “qual é a expectativa que uma criança que vive lá tem?” veio aos montes entre todos, mas a resposta é simples: ali, eles vivem de maneira simples, sem saber como é o mundo enorme lá fora, então, como desejar algo que não se sabe que existe?

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