Ramadan: Fé x Lei

Enfim, começou o Ramadan. Desde o dia 7 de junho, o mundo islâmico não come e não bebe nada enquanto houver luz do sol. Aqui no Marrocos, mais ou menos das 5h da manhã até às 19h30. Além disso, nesses 30 dias de jejum eles não podem fazer sexo e oram praticamente todo o tempo livre após a refeição das 19h30.

Depois de passar uma semana ao lado da Sabrina Sato, que gravava seu programa aqui em Marrakech (post dos bastidores virá em breve!), e ver de perto toda aquela beleza, eu achava bem justo eu fazer jejum e entrar de vez naquele jeans que está pequeno e eu guardei como “baliza” do meu peso. Mas, sinceramente, não me encaixo nos “padrões” de 14h de jejum e decidi continuar tentando me “encaixar” no jeans pequeno por outros meios… rs

A vida aqui fica um pouco confusa durante esse período. Todas as lojas e estabelecimentos mudam seus horários. Geralmente, abrem a partir de 10h da manhã. Antes desse horário, pouquíssimas pessoas estão na rua. Depois, no fim do dia, tudo fecha às 19h, as pessoas voltam para suas casas para comer e reabrem seus locais a partir das 20h30 ou 21h, ficando aberto até meia noite. Alguns lugares, como a academia, estende seu horário até 2h da manhã. Porém, aqui, agora, estamos enfrentando dias de 42 ou 43 graus, com 8 ou 10% de umidade. Você consegue imaginar o que é não poder beber água nesses dias?

Alguns marroquinos me disseram que o pior são os quatro primeiros dias. Depois disso o corpo acostuma. Porém, vimos dois acidentes  de moto na estrada, em um domingo de Ramadan, onde nitidamente o erro aconteceu graças à fome e desidratação. O sol fervia às 15h quando uma moto simplesmente atravessou a pista da estrada duas mãos, quase foi atingida por um carro, e acabou com os três ocupantes da moto (sim, TRÊS! Eles andam em quantos querem nas motos, não há regras), sendo uma criança de uns oito anos, no chão, bastante machucados. A “ordem do dia” durante o Ramadan é para que todos se recolham o máximo possível, para que o jejum seja mais suportável.

Durante esse período não é difícil encontrar pessoas bastante abatidas, irritadas, mau humoradas, dentre outras “características de jejum extremo” antes das 19h. E tudo isso em nome da fé e da lei. Explico mais para frente.

Analisando tudo isso nessa primeira semana, encontramos bastante beleza no Ramadan, apesar de alguns pontos que poderiam ser ajustados de acordo com a realidade de cada país. A crença na autopurificação, a busca pela evolução espiritual, o contato com Deus ainda mais ostensivo que somente durante as cinco orações do dia, os homens estão sempre bem vestidos, com aqueles kaftans masculinos em tons claros, o exercício do sacrifício em nome da fé e, principalmente, a vigília noturna nas mesquitas.

Vi, na Mesquita da Koutoubia, uma das cenas mais lindas de toda minha vida. A parte de fora da Mesquita estava completamente lotada de homens e mulheres, uns 1000 ou 2000 ao todo, separados, cada um de um lado, orando em sincronia, por muitos e muitos minutos, talvez até por muitas horas. Enquanto o alto falante da mesquita puxava as orações com cânticos, todos se ajoelhavam, abaixavam a cabeça, levantavam e faziam movimentos com as mãos exatamente ao mesmo tempo, como se fosse ensaiado. Mas é apenas o que eles fazem todos os dias, em suas casas e mesquitas, só que dessa vez, em um grupo extremamente maior. E há alguns pequenos intervalos após um tempo de oração para que quem precise sair vá embora e outras pessoas podem entrar na oração.

Todas as ruas ao redor são fechadas todas as noites para a vigília, a polícia interdita várias passagens e quem não é muçulmano não pode passar por várias ruas ali perto, mesmo que a pé.

O jejum aqui é lei. Se você é marroquino, você tem que fazer. Isso faz com que várias pessoas que não acreditem naquilo ou que não podem simplesmente viajar todo o mês do Ramadan (se você está fora do país não há obrigação de fazer) cumpram o jejum, se sacrifiquem, porém sem um real propósito para aquilo. Caso alguém seja visto desrespeitando o jejum publicamente, pode ser preso. Em uma roda de marroquinos mais modernos, vi eles conversando sobre fumar haxixe entre largas risadas, durante o Iftar – a refeição após o por do sol.

Na mesma mesa, vi um português radicado no Marrocos há 10 anos dizendo que se durante o dia ele não sente fome, ele jejua em solidariedade aos amigos, porém bebe água porque o clima extremamente seco o impede do contrário. E aí, quem está certo e quem está errado? Existe certo ou errado?

Eu, como católica, acredito no jejum como meio de evolução espiritual e religiosa. Já fiz vários períodos de jejum em prol de algo que eu gostaria de alcançar internamente, como um agradecimento a Deus ou como sacrifício mesmo, mas nunca jejum absoluto de água e comida, por tantas horas, podendo causar danos para mim e para os outros ao meu redor, como os meninos da moto. O sacrifício, na minha opinião, é reconhecido por Deus, porém desde que não cause danos. E desde que esse sacrifício tenha um propósito real, não apenas o cumprimento de uma lei. Eu não vejo benefícios com Deus nessa contradição. Mas como cada cabeça tem uma sentença, meus pensamentos não são e nem têm a pretensão de ser verdade absoluta. São apenas as minhas ideias. E você, tem opinião sobre isso?

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