Um olhar para dentro

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As aulas de francês estão me fazendo pensar. Não no francês, mas na vida. Não é raro eu viajar durante a aula e perder o que a professora está falando. Isso porque venho percebendo uma certa ingenuidade muito bonita nas pessoas daqui. Muito mais nas mulheres, mas em muitos homens também.

Outro dia, uma das lições do livro se passava em Paris e havia um mapa da cidade. Ali, mostrava a Ópera, Jardin de Tuillerie e o Museu do Louvre. Então, a professora perguntou o que havia dentro daquele museu e ninguém soube responder. Diante do silêncio, ela resolveu explicar o que é o Louvre, ou seja, as pessoas ali jamais haviam escutado falar daquele lugar. Depois, em outra aula, o exercício era descrever com riqueza de detalhes o local de sua última viagem de férias, ou o hotel onde se hospedou. A professora começou a perguntar para onde as pessoas tinham ido nas últimas férias e Amin, meu culega do lado, disse que nunca tinha viajado.

Isso causou muita estranheza em todos. “Como assim nunca viajou? Nunca saiu de Marrakech?”, perguntou a professora. Então, ele disse que já tinha ido a Rabat – capital do Marrocos -, uma vez, em um Ramadan. Ela disse que ele já tinha viajado, então. E ele respondeu que foi muito rápido. Enfim, na aula seguinte, os alunos leram suas redações sobre suas férias e Amin contou sobre uma viagem que ele imaginou. Já Latifa, contou sobre uns dias que passou em Essaouira, uma cidade próxima a Marrakech, onde ela alugou um apartamento e disse ser “a viagem de sua vida”, já que foi a única. Já Mohammed contou sobre o apartamento do amigo do seu pai, em Casablanca, onde se hospedou quando viajou pela primeira e única vez. Foi quando uma outra menina começou a contar sobre uma cidade linda que conheceu causando euforia na professora. Ela, quase sem conseguir se controlar, interrompeu a menina e começou a dizer que a cidade era linda mesmo, que morou lá por 4 anos, e que na época de sua mudança estava preocupada com as pessoas, como a receberiam, como ela iria viver em um local diferente e ter sucesso no trabalho, mas ela adorou tal cidade.

Foi quando eu a interrompi e perguntei qual cidade era. Imaginei que ela estava falando de uma cidade do Vietnã, na China, na Jamaica. Algum lugar muito, muito diferente do Marrocos, dos muçulmanos. E ela me explicou que era uma cidade distante 80km de Marrakech, com brilho nos olhos e orgulho do que estava contando.

E foi a pureza que eu vi nos olhos dela, nos olhos de Latifa falando de Essaouira, nos olhos de Amin dizendo que nunca viajou, que vejo muito aqui.

Talvez, o mundo islâmico tenha tolhido de muitos a oportunidade de conhecer muito, de conhecer tudo, de querer ir para fora, da curiosidade do que se passa do outro lado da fronteira, do país, do oceano, e isso, ao mesmo tempo que é ruim, é bom.

Vejo a falta disso em mim mesma. Parei para pensar quando foi a última vez que me encantei muito com algo, que contei com brilho nos olhos sobre uma cidade, uma novidade. Não nos surpreendemos mais porque temos tudo muito próximo. Nenhum país, por mais distante que esteja física ou socialmente, está realmente longe de nós. Temos Google, temos pencas companhias aéreas que voam direto ou com escala para o Brasil. Temos viagem parcelada, temos programas de intercâmbio. Isso só para falar sobre viagens. Imagina sobre o resto das coisas? O Brasil, assim como EUA, países europeus e outros, estão muito abertos ao mundo. Mas quando você mora em um país que está no processo de abertura para todos os outros, ainda há pureza no olhar e na fala.

Há alguns dias, saímos da aula e fui com a #inteligentona e Oumaima, uma de suas amigas, na Praça Jamaa El Fna comprar minha amada e desejada lousinha para os ditados em sala. Elas me levaram lá e enquanto íamos, percebi que estavam fofocando de mim em árabe.  Não era uma fofoca maldosa, era algo com muita timidez. Até que a #inteligentona me perguntou se no Brasil falamos espanhol ou inglês. Eu respondi que era português, como o de Portugal, mas com algumas diferenças.

Alguns dias depois, cheguei na aula e Oumaima estava falando em espanhol com a #inteligentona e errou algumas palavras. Eu continuei de cabeça baixa, lendo o livro que usamos na aula, e com a voz fraca, corrigi o que ela estava falando. Como se desse a dica para ela se corrigir e sair de bonitona pra #inteligentona. Como uma brincadeira mesmo. Oumaima se surpreendeu de uma maneira que até eu fiquei surpresa. “Lilian, parlez-vous espagnol?”, me perguntou boquiaberta. Eu disse que falava um pouco, mas acima de tudo, era uma língua parelha ao português. Foi então que ela resolveu me contar tudo o que sabia sobre a Espanha, o espanhol e Enrique Iglesias. Entende? Ela amou saber que eu sei espanhol, como ela. Quando foi a última vez que você ficou muito, mas muito feliz porque alguém falava espanhol, italiano ou inglês com você?

Percebo isso na Chafia também. Percebo isso nos garçons que param para falar com a gente e nos vendedores de lojas que, ao menor sinal de que somos brasileiros, saem falando “Neymar! Juninho Pernambucano! Rivaldo!”.

E isso só me fez pensar o quanto precisamos, muitas vezes, ir para longe, ir para fora, para irmos para dentro. Dentro de nós, dentro do que a gente acha bonito, dentro do que consideramos bons valores para passarmos adiante, para passarmos para nossos filhos.

Vamos nos maravilhar mais! E aproveitar a candura dos momentos e das situações que nos rodeiam!  Vamos pensar para fora, mesmo que o caminho nos leve para dentro.

1 comentário Adicione o seu

  1. Paola de Picciotto disse:

    Emocionante minha menina, palavras do coração e de amadurecimento . Bjs . Saudades

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