A firangue estrangeira

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Whaaaaaaaat?

As mesas são dispostas em U e no meio do U tem uma mesa menor. No U, sentam assim: encostados nas janelas, um grupo de 5 meninos. Em frente a eles, eu e Amin, o único que sei o nome. Também não sei o nome dos meus culegas de sala. Me julguem de novo. Exceto pelos dois meninos chamados Amin. Esse que senta do meu lado e é o mais sério (no Brasil e nos EUA, seria o nerd), e o outro que é da turma da bagunça e que senta na nossa frente. E o nome dos outros alunos é meu grande problema e eu explico o porquê mais para frente. Na ponta do U sentam 3 meninas que se vestem “normal” e não usam o lenço. No meio delas, sempre senta a #inteligentona. Chamo ela assim porque não sei o nome dela e ela é a que mais sabe francês da sala. Sempre tem a resposta na ponta da língua, a melhor pronúncia, então quando quero falar dela eu digo “a mais inteligente, a inteligentona, a diferentona”. E eu gosto dela porque no primeiro dia de aula eu esqueci meu caderno e quando a professora mandou os alunos abrirem os cadernos (eu entrei numa sala que já havia começado as aulas duas semanas antes) eu fiquei com cara de “whaaaaaaaat?” e ela arrancou uma folha do caderno dela e me deu. Aiiinnnnn, que fofa! – pausa para o momento sentimental. E para finalizar, no meio do U, sentam três meninas que usam o traje muçulmano completo.

Já falei que o francês do marroquino é meio de nariz entupido, meio com a batata quente na boca, certo? Pois bem, minha querida professora, que é a única que eu entendo na sala de aula, costuma chamar todos os alunos, um por um, todas as aulas, para responder exercícios na lousa. Daí, quando ela chama alguém, eu simplesmente não entendo o nome que ela diz, nem o que está dizendo, fico perdida. Ouço ela falando, não entendo nada, fico olhando para os lados para ver o que os outros estão fazendo para eu fazer igual. Até que alguém levanta e vai até a lousa e eu finalmente entendo que ela chamou aquela pessoa para responder algo. Ufa! Também entendo quando ela me chama “Liliáaaaan” – ela acentua o A e puxa ele beeeeem longo. Assim também me chama a minha amiga #inteligentona -, e aí eu levanto para ir até a lousa.

Na última aula, ela me chamou “Liliáaaaan” e perguntou se eu tinha uma lousa. Eu fiz a famosa cara de “whaaaaaat?” e todos soltaram uma risadinha meio que para dentro, sabe? Eles sempre fazem isso quando alguém não entende algo. Mas eu entendi a pergunta, só não entendi o motivo dela me perguntar se eu tinha uma lousa. Não era óbvio que não? Não! Meu amigo Amin e mais outras pessoas sacaram, sagazmente, uma mini lousa branca, de caneta, de seus pertences e me mostraram orgulhosos, tipo troféu de campeão da Fórmula 1. Eu continuei com a minha cara de “whaaaaat?” pensando: “por que raaaaaaaios as pessoas carregam mini lousas nas suas coisas?”. E então a professora me explicou que ela faz ditados e todos escrevem a palavra em suas lousinhas e as levantam para ela ver quem escreveu certo. E que era “muito muito muito importante” eu ter a minha.

Minha cabeça é meio “O Fantástico Mundo de Bob” e na hora eu já viajei, me senti no concurso “Musa do Carnaval”, do Caldeirão do Huck, levantando a plaquinha com a nota que eu daria para as passistas. Nota deeeeeez!

Para melhorar, cheguei na aula de regata e das 10 tatuagens que eu tenho, 5 são no braço direito. E meus culegas subiram as escadas atrás de mim e viram os rabiscos. Quando chegamos na sala, eles sentaram na minha frente e entre risadinhas e fofoquinhas, se entreolhavam, olhavam para mim, ou seja, me julgavam. Percebi que virei a firangue estrangeira da sala, a diferentona.

Em todo Marrocos, as tatuagens são comuns, de henna ou permanete, mas sempre com o cunho religioso ou cultural, por exemplo, no caso dos berberes, o povo nativo e mais antigo do Marrocos. A firangue ocidental aqui não tem nenhuma tatuagem desse tipo, então eles estranham mesmo. Já me perguntaram se eram religiosas do meu país e eu disse que não, causando um certo desconforto em quem me perguntou.

Enfim, mas nada é tão ruim que não possa piorar, não é mesmo, meu bem? Depois desse módulo de francês eu vou me inscrever na aula de árabe do Instituto Cervantes, onde eles ensinam o árabe com base no espanhol. Não quero nem imaginar o que está por vir!

 

1 comentário Adicione o seu

  1. Paola de picciotto disse:

    Muito bons seus comentários ! Simpáticos , divertidos e instrutivos . Parabéns ! Bjs

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