O sufoco da língua

A comparação que eu faço entre o francês de um francês e o francês de um marroquino é mais ou menos assim: falar em francês com um marroquino é como se você estivesse muito gripado, com uma congestão nasal forte, e ficasse tentando respirar mas está tudo tapado. E aí você puxa o ar, puxa o ar, puxa o ar, mas o ar não vem. Aí quando você fala com um francês é como se você tivesse, de repente, curado da congestão, com um daqueles adesivos nasais que aumentam a passagem de oxigênio e quando você puxa o ar, vem todo o ar do planeta terra. Entendeu?

Aqui, todos os marroquinos são alfabetizados em árabe e francês. Não é o árabe dos sírios-libaneses, origem de 100% da minha família, mas é bem parecido. Quem não fala francês é porque não foi para a escola.

E eu estudei 6 anos de francês, dos 8 aos 14, na escola que estudei, em Santos (SP), mas nunca utilizei muito esse francês. Somente quando viajava para a França ou para o Marrocos, obviamente, mas não foram tantas vezes assim. Ou seja, enferrujou. Entendo tudo o que todo mundo fala, mas sinto certa dificuldade em formular as frases.

Sendo assim, fui até o Instituto Francês do Marrocos pegar informações sobre o curso de francês e, chegando lá, entre um francês arranhado e outro, me sentaram em uma mesa, de frente a uma professora, para um teste de nível. Eu não entendi nada porque foi tudo tão rápido que fiquei perdida e quando vi a porta da sala batendo, meu marido saindo, e a professora puxando uma cadeira para mim, olhei para ela e fiz aquela cara de “whaaaaat??”. Me puseram em uma posição bem desconfortável porque eu odeio ser pressionada! ODEIO! Travo, fico com raiva… Gosto das coisas avisadas com antecedência e sem pressões. Bom, eu estava encurralada. E então ela começou, em francês, obviamente:

-Bom dia! Sou Marie, professora de francês, e vou avaliar qual nível você vai se matricular, tudo bem?

-Aham, eu respondi.

-Então pode se apresentar

Silêncio total.

-Se apresente. Diga seu nome, de onde você veio…

-Meu nome é Lilian, sou brasileira, moro em Marrakech há uma semana.

-E o que mais?

Silêncio total.

-Quando você volta para o Brasil?

-Não sei – respondi rapidamente.

-Mas as coisas no Brasil estão encerradas, então?

-Aham.

Marie então me olhou profundamente nos olhos, deu um leve respiro e continuou.

-Você tem irmãos ou irmãs

-Aham.

-Irmã ou irmão?

-Irmã.

-Só uma?

-Aham.

-E seu marido?

-Hum-Hum (aquele grunhido que quer dizer “não”)

Sério, eu queria rir, mas não podia porque teria que me explicar em francês e aí seria bem pior. Eu queria falar mil coisas mas simplesmente não conseguia! Parecia um ET! E tudo que eu me lembrava era “Je m´apelle Jordi, j´ai 4 ans et je suis petit… dur dur d´être bebé”.

E então, Marie se levantou, pegou um papel e me disse:

-Vamos fazer um teste de escrita. Eu já percebi que você entende tudo o que eu falo. Então, aqui você vai fazer uma apresentação sua como se fosse um perfil do Facebook. Fale bastante coisas sobre você, sua profissão, seus hobbies, o que gosta de fazer… enfim, tudo o que é importante sobre você.Quando acabar me avise, ok?

-Aham.

E então eu escrevi, com calma, várias linhas. Escrever é comigo mesmo. E quando acabei eu chamei pela Marie. De longe, ela pergunta:

-Acabou?

-Aham.

E aí ela repetiu para ela mesma, como se achasse graça “aham”.

E quando ela leu meu teste, seus olhinhos azuis brilharam!

-Você vai direto para o nível 2! – exclamou, mais feliz do que eu mesma, em perceber que aquela “porta” do “aham” não era tão “porta” assim.

E, após a matrícula, ao pegar meus livros, passou um filminho na minha cabeça e minhas amigas de escola me entenderão: toda vez que as professoras de francês entravam na sala e nos falavam “bonjour, mes eleves” (bom dia, meus alunos), começávamos uma sequência de brincadeiras que só acabavam quando elas saiam chorando da sala. Era um absurdo, eu sei. Mas juntavam 35 crianças/ adolescentes terríveis, de um colégio de freiras, com sede de risadas… e acabava nisso. E aí, o que a gente deveria aprender em francês virava só piada. E olha que eu me empenhava, era CDF, queria tirar nota máxima em tudo. Acho que fui uma das que mais aprendi. Aham…

Je suis désolé, professeur!

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